quarta-feira, 4 de julho de 2012



          As orações dos homens 
Subam eternamente aos teus ouvidos; 
Eternamente aos teus ouvidos soem 
          Os cânticos da terra. 

          No turvo mar da vida, 
Onde aos parcéis do crime a alma naufraga, 
A derradeira bússola nos seja, 
          Senhor, tua palavra. 

          A melhor segurança 
Da nossa íntima paz, Senhor, é esta; 
Esta a luz que há de abrir à estância eterna 
          O fulgido caminho. 

          Ah ! feliz o que pode, 
No extremo adeus às cousas deste mundo, 
Quando a alma, despida de vaidade, 
          Vê quanto vale a terra; 

          Quando das glórias frias 
Que o tempo dá e o mesmo tempo some, 
Despida já, — os olhos moribundos 
          Volta às eternas glórias; 

          Feliz o que nos lábios, 
No coração, na mente põe teu nome, 
E só por ele cuida entrar cantando 
          No seio do infinito. 

Machado de Assis, in 'Crisálidas'

Nenhum comentário:

Postar um comentário